Cerca de 4 milhões desempenham essa tarefa e boa parte não recebe qualquer tipo de remuneração Para a economista Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), há um grupo praticamente invisível que vem sendo ignorado na pandemia: os cuidadores.

No Brasil, há cerca de 4 milhões exercendo essa atividade, sendo que 66% são mulheres – e aí estão incluídas 120 mil empregadas domésticas.

No entanto, boa parte desse contingente não recebe qualquer tipo de remuneração e 42% têm mais de 60 anos.

Por isso ela propõe que os cuidadores familiares não remunerados deveriam ser incluídos no programa do governo de ajuda aos informais: “seria uma forma de garantir que tivessem uma renda mínima, até para adquirir equipamentos de proteção individual.

A recomendação de distanciamento social impõe desafio ainda maior para quem toma conta de um idoso frágil, por causa da atenção redobrada para evitar contágio, o que acarreta sobrecarga de trabalho e estresse.

Com o bem-estar físico e psicológico sob risco, os cuidadores deveriam ser acompanhados por serviços de atenção à saúde”. Cuidadores familiares: 4 milhões desempenham essa tarefa e boa parte não recebe qualquer tipo de remuneração Sarcifilippo por Pixabay Ana Amélia lembra que um terço dos indivíduos que têm essas atribuições deixa de trabalhar ou estudar: “quando o cuidado cessa, essa pessoa envelheceu, não tem renda, não contribuiu para a Previdência e não se qualificou”.

Ela sugere que, como a atividade demanda um grande volume de mão de obra, poderia integrar um programa de geração de empregos para amenizar a crise.

“Cuidadores profissionais seriam utilizados para propiciar algumas horas de respiro, um descanso às famílias, uma ou duas vezes por semana.

Seria benéfico para todos”, avalia. A economista era uma das integrantes de um painel sobre os cuidados com idosos que vivem em instituições de longa permanência, promovido pela Emerj (Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro) no dia 27 de maio.

Elegeu a figura do cuidador para enfatizar que este é um direito social de todos.

Na opinião da geriatra Karla Giacomin, que também participou do debate, “há uma insuficiência de políticas públicas para amparar essas famílias diante da complexidade de cuidados que um idoso pode demandar”. Este seria o papel das instituições de longa permanência, mas sua distribuição está muito aquém do necessário: 58% delas estão na Região Sudeste; 17% no Sul; 12% no Nordeste; 11% no Centro-Oeste e apenas 2% na Região Norte.

No dia 8 de abril, foi criada a Frente Nacional de Fortalecimento às ILPIs, estruturando um plano de ação preventiva para a Covid-19.

Questões como limpeza do ambiente, higiene alimentar e controle de infecções não são novidade nesse universo, mas se tornaram agudas na pandemia.

“O vírus não está introduzindo novos problemas, apenas joga luz nos já existentes”, sintetizou a doutora Giacomin.